Adolescentes e esporte

Adolescentes têm muitas dúvidas sobre treinamento, musculação, hipertrofia muscular e suplementos.

        Esse artigo de hoje foi inspirado num adolescente de 13 anos que foi ao meu consultório, cheio de dúvidas muito comuns aos outros da sua idade. Vamos falar sobre musculação, suplemento e ganho de massa muscular e ver que alguns conceitos estão ultrapassados e outros mantêm-se firmes e fortes.
Primeiro, vamos falar a respeito da escolha da modalidade esportiva. A criança que faz exercício desde cedo deve ser exposta a várias modalidades diferentes ao longo da infância. O esporte tem um papel mais lúdico, de desenvolvimento da coordenação motora e do raciocínio, além da integração social. Por ser uma fase de desenvolvimento, o papel competitivo é secundário. As medalhas e troféus são mais por participação do que por ficar em primeiro lugar.
Quando a criança atinge a casa dos 10 anos, ela possivelmente já elegeu a modalidade de sua preferência e quer se aperfeiçoar nesse esporte. É quando muitos começam a se federar, quando a escolinha de futebol é levada mais a sério e quando os pais buscam serviços para melhorar a performance do jovem atleta. A avaliação pré-participação é essencial, para que sejam afastadas doenças cardíacas, respiratórias, ósteo-musculares e sanguíneas que possam se agravar durante os treinos. Ouso dizer que a avaliação pré-participação deve ser interdisciplinar: o primeiro contato com o médico do esporte e depois avaliações com médico nutrólogo ou nutricionista e com oftalmologista. Outras especialidades seriam requisitadas de forma mais específica caso houvesse algo de alterado em algum exame ou se o adolescente tivesse uma queixa específica.
Uma pergunta pertinente que esse jovem me fez foi em relação à musculação, o treino de força. Até pouco tempo, existia uma crença que a musculação impediria o crescimento por hipertrofiar os músculos “cedo demais”. Hoje já se sabe que isso não procede. A musculação na adolescência serve para desenvolver a propriocepção, ou seja, a consciência corporal, e a coordenação motora. Aliado ao treino da modalidade, o adolescente começa a desenvolver o gesto esportivo, tornando-se mais específico no esporte escolhido. Os pré-adolescentes e adolescentes podem fazer esse tipo de exercício com a supervisão devida do profissional de Educação Física.
Porém, deve ser explicado que eles não vão alcançar o corpo de um atleta adulto, com barriga tanquinho e braços musculosos, por causa do momento hormonal. É comum vermos meninos de 10 anos ganharem alguns quilos e ficarem meio redondinhos, até quando sempre foram magros. Logo depois, esses meninos começam a desenvolver seus caracteres sexuais secundários, com surgimento de pêlos axilares e pubianos, um bigodinho ralo e eles percebem que o formato e tamanho da genitália começa a mudar. Eles entraram na puberdade, que vem acompanhada do estirão puberal, o pico de crescimento. Essas mudanças vão acontecer ao longo dos próximos 5 a 6 anos, até os 21 anos, quando um jovem adulto alcança sua maturidade hormonal. A partir desse momento, o corpo atingiu sua altura máxima, os sistemas cardiovascular e pulmonar já estão adaptados a nova forma física, com mais massa muscular e é quando a musculação vai trazer o resultado esperado de hipertrofia.
Outra dúvida é relacionada ao uso de suplementos. A literatura mostra que alguns suplementos ajudam na performance e outros na tolerância aos treinos. Ao contrário também do pensamento antigo, já vimos aqui que alguns são muitos seguros (como a creatina) e que a função renal não é prejudicada com o uso, sob supervisão, de suplementos protéicos. Mas a performance é muito afetada pela dieta! O principal recurso ergogênico nos adolescentes é a dieta. Ao equilibrar o que ele come, introduzindo carboidratos e gorduras saudáveis e atingindo o alvo de calorias e proteínas, o adolescente vai render mais, não vai sofrer com cãibras e vai conseguir se desenvolver de forma adequada. Mais do que qualquer suplemento, comida de verdade vai fazer diferença.
Por último, mas não menos importante, fica a questão da hidratação. Por causa da grande perda através do suor, os atletas adolescentes devem atentar para quanto ingerem de água e líquidos ao longo do dia e durante os treinos. Esperar ter sede para beber alguma coisa não é o ideal, porque a sede é um sinal mais tardio de desidratação. Para colocar o próprio adolescente a par do seu estado de hidratação, temos uma ferramenta muito fácil e simples: observar a urina de quando acorda. Sim, ela pode falar muita coisa. Se ela está muito amarela (até escura), se o odor é muito forte e se a quantidade é pouca logo ao acordar, esse adolescente está cronicamente em déficit de líquidos. Alcançar metas de ter a urina mais clara toda manhã ajuda no que ele precisa consumir de líquidos no dia anterior. Existem outros métodos mais fidedignos de saber o estado de hidratação? Sim, mas muito são mais complexos. Essa ferramenta além de simples também é uma forma de estimular o auto-conhecimento desde cedo na vida esportiva.