Atleta que não come, não rende

O campo da Nutrologia Esportiva é enorme e, num mundo cercado de suplementos por todos os lados, quase ninguém acredita que uma dieta balanceada é o melhor recurso ergogênico que existe para os atletas. Esse equilíbrio acontece quando o esportista ingere a quantidade correta de calorias, proteínas, gorduras, carboidratos, vitaminas e minerais. Existem trabalhos científicos realizados nas federações de modalidades esportivas brasileiras, ou pelo Comitê Olímpico Brasileiro que mostram a alimentação e nutrição dos atletas e como eles consomem muito menos calorias, macro e micronutrientes do que precisam, permanecendo com um déficit calórico crônico. As implicações disso na saúde esportiva vão além de só atingir marcas melhores e pode acometer com atletas profissionais ou amadores.

Ao ingerir menos do que precisamos de forma contínua, o corpo não tem “tijolos” para a construção do seu “prédio”: os tijolos são as proteínas e carboidratos e o prédio são os músculos. Nesse modo economia, toda caloria que entra é armazenada em forma de gordura, pois o corpo entende que ele precisa ter um estoque porque está passando por um momento de privação. Assim, não é difícil vermos atletas que não atingem o shape ideal. O que eles acabam fazendo? Aumentando a intensidade dos treinos ou cortando calorias da dieta. O que acontece? O quadro só piora e existe uma chance maior de lesões ósseas ou musculares.

Vamos imaginar que esse atleta aí tenha uma lesão muscular moderada. Se ele também consome pouca gordura, ele tem mais um ponto contra sua recuperação. De todas as calorias consumidas, entre 20% e 25% devem ser consumidas na forma de gordura. Nosso organismo precisa de colesterol para fabricar hormônios; precisa de gordura saturada que carrega as vitaminas A,D, E e K; precisa das gorduras insaturadas para garantir funcionamento do sistema imunológico e defesa; precisa dos ômegas 3,6,9 para auxiliar em todas essas funções; e também precisa da gordura para recuperar a membrana basal das células musculares e ajudar no processo de cicatrização.

Se, ainda assim, esse déficit calórico se mantiver, o atleta começa a perder sua massa muscular. O organismo entra num processo de inflamação crônica que consome a massa muscular, altera os hormônios do estresse e ainda piora a saúde óssea. Voltando ao atleta da lesão muscular, além de não conseguir se recuperar de forma definitiva dessa lesão, ele ainda pode apresentar fraturas ósseas de estresse, causado pelo excesso de treinamento ( ou overtraining) num corpo que já está no seu limite é que não tem substratos para se recuperar.

Nós já vimos isso acontecer com a ginasta Diane dos Santos. No caso dessa modalidade, a cultura de um corpo muito magro ainda ajuda mais a perpetuar o corte calórico que pode levar a esse quadro. No caso das mulheres, elas podem parar de menstruar pela baixa ingesta e perda de gordura corporal, constituindo a tríade da mulher atleta, definida como a presença de anorexia, osteoporose (que leva às fraturas) e amenorréia (parada da menstruação).

Com os atletas amadores, é muito comum acontecer isso. Muitas pessoas começam um programa de exercícios ou aderem à uma modalidade esportiva para perder peso e melhorar seu estilo de vida. Nesse início, a dieta hipocalórica pode ajudar na perda de peso, na melhora da glicose ou do colesterol. Mas muitos tomam gosto pelo esporte e começam a participar de competições e aumentam o volume e intensidade dos treinos. E continuam com uma dieta que não mais cobre suas necessidades, pois o momento metabólico mudou, pois o gasto energético é maior, a taxa metabólica basal é maior. Com o aumento da necessidade, a dieta deve ser toda reajustada e, acreditem, muitos perdem a gordura do modo econômico comendo mais.

Só vou chamar atenção para um detalhe: comer mais não quer dizer comer pior. Precisar de 3000 calorias por dia não é passe livre para hambúrguer, batata frita e refrigerante, até porque esses alimentos têm muitas calorias, mas são pobres em nutrientes! Um corpo ativo precisa de escolhas sábias. Um atleta possivelmente não vai entender tudo sobre nutrição, nem seu técnico ou preparador físico. Por isso, o médico nutrólogo ou o nutricionista esportivo são os profissionais mais indicados no campo da nutrição desportiva para orientá-los, sejam de alto rendimento ou amadores. Não adianta suplementar quem não come. Primeiro, toda a nutroterapia deve ser repensada e, num segundo momento, se houver necessidade, a suplementação esportiva pode ser prescrita.