Comer de 3 em 3 horas garante o sucesso da dieta?

comer de 3 em 3 horas garante o sucesso da dieta?

Já perdi a conta de quantas pessoas me fizeram essa pergunta: “eu realmente preciso comer de 3 em 3 horas?”. E a surpreendente resposta é: não necessariamente. Há alguns anos, esse fracionamento da alimentação vem sendo adotado e a probabilidade de você sair de um consultório com uma dieta, cujas alimentações tenham esse intervalo, é enorme. Arrisco dizer quase 100%. Mas o que me faz pensar o contrário?

O argumento é que se a pessoa come com intervalos menores entre as refeições, ela sente menos fome e seu metabolismo fica mais ativo. Concordo com isso? Em partes. Para uma pessoa com grande gasto energético diário, isso é uma verdade. Por exemplo, uma pessoa que treina para maratona, de forma regular, não só pode como deve se alimentar em espaços curtos. Dentre os motivos estão evitar catabolismo muscular, garantir a ingestão de alimentos (porque geralmente elas não conseguem ingerir grandes volumes de comida numa só refeição) e tentar atingir a necessidade calórica diária. E, ainda assim, elas possivelmente vão precisar de suplementação, pois nem sempre alcançam a meta de calorias e de proteínas para garantir a performance atlética. Só para você ter noção, um atleta amador pode necessitar de até 4000 calorias por dia quando os treinamentos estão na fase mais intensa.

Agora, vamos ao outro lado da questão: pessoas com sobrepeso, obesidade, muitos com pré-diabetes ou diabetes instalada. Toda a questão de intervalos curtos entre as refeições começou como uma tentativa de auxiliar na perda de peso, mas as estatísticas recentes mostram que essas pessoas não estão emagrecendo, mesmo comendo de 3 em 3 horas. Por que? Porque elas estão comendo mais a cada refeição!

E por que estes intervalos curtos não estão melhorando a saúde dos diabéticos? Porque toda vez que ingerimos comida, nós estimulamos a produção de insulina, o hormônio que leva a glicose para dentro das células e que estoca a gordura ingerida na forma de adipócitos (as células de gordura que estão no desagradável pneuzinho). Quanto mais refeições, mais insulina produzida. O funcionamento da insulina no organismo diabético é alterado: por haver resistência das células, o pâncreas produz mais insulina e não coloca a glicose de forma efetiva dentro das células. Assim, ela acaba virando gordura, seja como triglicerídeos, colesterol ou como tecido adiposo.

Através dessa lógica, estudos recentes mostraram que fazer menos refeições por dia pode ser uma boa estratégia sim, principalmente para o grupo com sobrepeso ou obeso com alterações da glicemia. Ao espaçarmos mais as refeições, temos menos picos de insulina ao dia. Vamos acumular gordura? Sim, se houver excesso de calorias. Mas se a dieta for normocalórica ou hipocalórica, existe perda de gordura corporal, sem comprometimento da massa magra, além da tendência a normalizar a glicemia e dos níveis de colesterol e triglicerídeos.

Um trabalho muito interessante submeteu mulheres sedentárias a uma dieta de 1200 calorias, com 4 refeições ao dia durante 11 dias, num intervalo mínimo e mandatário de 4 horas entre elas. No 12º dia, a dieta passava a ser livre e assim ficava por 3 dias, quando voltava a ter 1200 calorias. Após o segundo período de dieta livre, o consumo era de 1500 calorias. Esses ciclos se repetiam até completar 42 dias de protocolo. A perda de gordura estimada pelos pesquisadores foi de 3,1kg. O grupo submetido a esse protocolo perdeu uma média de 8kg de gordura, quase 3 vezes mais que o esperado.

Isso quer dizer que pessoas buscando emagrecimento não podem nunca mais comer de 3 em 3 horas? Não! A melhor dieta é aquela a qual a pessoa se adapta bem e adere. Por isso, eu bato na tecla que não é a pessoa que tem que se adaptar a uma dieta. A dieta é que deve se adaptar à pessoa. Alguns conseguem comer várias refeições ao dia, outros não. Não é a questão de ser certo ou errado: é a questão de oferecer alternativas e a pessoa conseguir manter um plano alimentar de forma efetiva, independente dos dogmas que o profissional de saúde tenha. O mais importante é preparar a pessoa para que ela consiga fazer escolhas conscientes sobre sua alimentação. Dito isso, deixo a pergunta: ao que você se adaptaria?