O ambiente das competições

        Nesse final de semana, aconteceu uma competição do remo (World Rowing Junior Championship 2015), que também foi um dos eventos-teste para as Olimpíadas e Paralimpíadas de 2016. Os cariocas sabem que a água da Lagoa Rodrigo de Freitas é poluída já de longa data. Mas os atletas estrangeiros estão descobrindo na pele o que é competir num ambiente que possa afetar a saúde e a performance.
Tomando esse caso do remo, logo após o evento, saiu a notícia que treze atletas da delegação dos Estados Unidos passaram mal após a prova. Você pode até pensar ” é remo, eles nem entram tanto em contato com a água”, mas o pouco contato que têm pode ser o suficiente. No site da Prefeitura do Rio, o boletim nº210/2015 da Gestão Ambiental dos Sistemas da Lagoa Rodrigo de Freitas diz que a água era própria nos dias da competição (entre 6 e 8 de agosto). Porém, outras entidades, como a Associated Press, também encomendaram teste com a água de locais de provas olímpicas. Os resultados são contraditórios, pois, no caso da AP, os testes encontraram níveis perigosamente altos de vírus e bactérias de esgoto humano nesses locais.
Outros casos polêmicos do ambiente hostil em local de provas são as maratonas de Pequim e de Paris. Em Pequim, a prova aconteceu em outubro do ano passado com apresenta de vários atletas usando máscaras no rosto, para evitar a inalação do ar. Houve vários casos de desistência. Um dos atletas, Chas Pope, só conseguiu percorrer 10 quilômetros do total de 42 da prova e postou no seu Twitter a foto da máscara. É notável o escurecimento do filtro. Os organizadores da prova qualificaram o ar como ligeiramente ou moderadamente poluído no evento, apesar dos monitores da embaixada americana mostrarem o nível perigoso de poluição,, com  um pico de 400microgramas por metro cúbico, que põe em risco a vida se essa pessoa fica exposta por mais de 24 horas.
Em Paris, a prova desse ano foi cercada de medidas para tentar baixar a poluição do ar, que já atingia níveis máximos, sendo necessário baixar a velocidade máxima dos carros pelos arredores da cidade. Também foi realizado um rodízio de carros circulando dentro da capital francesa. Em 2015, a maratona de Paris reuniu por volta de 54 mil participantes. Deste, mais de 500 participantes tinham mais de 65 anos de idade.
Os locais de prova são extremamente importantes. No caso das águas do Rio de Janeiro, se existem vírus (como adenovírus, rotavírus, enterovírus), os atletas podem sofrer sim com vômitos e diarréias, gastroenterite, conjuntivite, infecção na pele e até encefalites. Além disso, águas poluídas carregam os coliformes fecais, bactérias e o vírus da hepatite A. O ar poluído pode deflagrar casos de bronquite e asma, que podem ser leves (apenas com chiado discreto no peito) até casos graves, com insuficiência respiratória aguda e morte. Pessoas com passado importante de alergia podem ter o quadro agravado de forma aguda, seja pela inalação ou por contato direto com um alérgeno, e chegar ao extremo de anafilaxia (a crise alérgica grave que pode levar à morte).
Meu papel não é discutir política, mas vou sempre discutir saúde esportiva. Aqui no Rio, estamos vivendo esse embate em relação às águas nos locais de competição. As autoridades devem chegar a um consenso e que seja favorável aos atletas e aos integrantes de suas equipes, que também vão ter contato com a água da Lagoa ou da Baía de Guanabara. Faço votos que prevaleça o bom senso no sentido da preservação da saúde humana e ambiental. Só não sei se vai dar tempo ou se esse compromisso vai ser honrado. Porque, infelizmente, o Brasil fica num dos últimos lugares do pódio quando o assunto é o governo entregar aquilo que se prometeu.

Chas Pope publicou no seu twitter a foto mostrando sinais da poluição do ar na maratona de Pequim 2014.
Chas Pope publicou no seu twitter a foto mostrando sinais da poluição do ar na maratona de Pequim 2014.