Exercício e saúde de pessoas com deficiências e paratletas

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No dia 03 de dezembro, é comemorado o Dia Internacional da Pessoa com Deficiência, uma iniciativa da Organização das Nações Unidas (ONU) desde 1992 para trazer reflexão sobre os direitos desse grupo. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, mais de 1 bilhão de pessoas vivem com algum tipo de deficiência. O conceito de pessoa com deficiência vai muito além de uma condição física. Em 2008, no Brasil, foi aprovada a Convenção Sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência, com equivalência de emenda constitucional. Nessa convenção, a definição de pessoa com deficiência (PCD) tornou-se mais ampla.

A PCD possui “… impedimento de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, o qual, em interação com uma ou mais barreiras, pode obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas.”

Para garantir os direitos das PCD, foi criado em 1999 o Conselho Nacional ddos Direitos das pessoas com Deficência (Conade) que, dentre outras funções, acompanha e avalia o desenvolvimento de uma política nacional para inclusão dessas pessoas.

Ok, mas até agora cadê a parte de exercício?

Calma, ser humano. Informação traz conhecimento e afasta preconceito! Agora que você já sabe o conceito, podemos começar a falar de exercício. Um sétimo da população tem algum tipo de deficência, ou seja, uma a cada 7 pessoas. A deficiência pode ser congênita (desde a formação do bebê) ou adquirida ao longo da vida. Hoje, apesar de ainda terem muitos desafios, as crianças com deficiência chegam à adolescência ou até mesmo a idade adulta, desenvolvendo doenças comuns à população geral, como obesidade, colesterol alto e hipertensão.

Exercício físico é fundamental para manter a saúde e evitar doenças crônicas, inclusive nas pessoas com deficiência

Existem muitos tipos de deficiência e as pessoas, hoje, conseguem chegar a uma idade mais avançada apesar delas. Crianças nascidas extremamente prematuras com problemas complexos de saúde conseguem sobreviver até a adolescência ou idade adulta, sendo que o “efeito cumulativo” pode aumentar os déficits com o passar do tempo. Vários fatores contribuem para a piora: alterações físicas funcionais, dificuldades sensoriais, alterações emocionais e disfunção cognitiva. Some a todos eles os determinantes sociais e econômicos e a PCD tem cada vez mais dificuldade de se comprometer com uma rotina de exercício e atividade física.

Por conta disso, esse grupo está mais propenso a desenvolver sobrepeso ou obesidade, principlamente pessoas com alteração da mobilidade dos membros inferiores. Pessoas com disfunção cognitiva têm maiores chances de entrar na faixa de obesidade mórbida. Doenças cardiovasculares são a principal causa de morbidade entre pessoas que tiveram trauma da medula espinhal. O tabagismo é maior no grupo de PCD quando comparado com a população geral na mesma faixa etária.

Um levantamento americano mostrou que o nível de exercício físico cai ao longo da vida das PCD, iniciando o declínio ainda numa idade jovem (estudantes de colégio) e que pode se agravar na vida adulta devido às barreiras econômicas, como altas taxas de desemprego nessa população (41%).

Mesmo se esses fatores não existissem, poucas são as academias ou locais de exercício próprios para PCD, com equipamentos para atender suas demandas físicas, cognitivas ou ocupacionias. Assim como a falta de profissionias treinados para lidar com as necessidades especiais.

Ultrapassando as barreiras: João da Handbike

Em 2016, recebemos os Jogos Paralímpicos no Rio de Janeiro. Tanto antes do jogos quanto depois, não existe uma política de estímulo ao exercício para as PCD. No atual contexto político e econômico, é mais fácil ainda relegar isso a um segundo plano. O Comitê Paralímpico Brasileiro realiza as Paralimpíadas Escolares anualmente desde 2009, mas a Academia Paralímpica, o setor responsável pela educação continuada de profissionais, parece não ter atividade recente.

O impacto do Jogos Paralímpicos é inegável, pois muitas pessoas mal sabiam da existência de tantos atletas em diversas modalidades esportivas competindo num nível tão alto quanto mostrado em Setembro de 2016. Esse foi o motivo da empolgação do adolescente João, de 13 anos. Ele acompanhou as provas de handbike e teve a oportunidade até de andar numa delas. Foi uma paixão instantânea. Mas o sonho iria à frente? É possível formar um paratleta hoje no Brasil, quando nem Educação Física as crianças e adolescentes têm de forma decente na escola?

“O grande legado principlamente dos Jogos Paralímpicos é o depois, que é a questão social, a questão cutural, a questão educacional”

Clodoaldo Silva, paratleta aposentado da natação, um dos maiores campeões do Brasil

Partiu dos próprios pais do João correr atrás e encontrar apoio para viabilizar o sonho do filho. A mãe Alessandra, enfermeira, e o pai Victor, administrador, foram ajudados num crowdfunding que permitiu a compra da handbike. Outras pessoas foram sendo somadas à equipe, como o paratleta da handbike Edson Rocha, que o iniciou no esporte, e a médica do esporte Joan Amato, fundadora do Nutroesporte. João começou a participar de provas não oficiais, como as provas de corrida de rua, onde ele largava na frente do pelotão de elite e fazia os 5 ou 10km das provas em sua handbike. Recebendo o carinho dos corredores, surgiram convites para outras provas e alguns patrocinadores começaram a aparecer. Hoje, ele é o João da Handbike.

Paratletas também sofrem lesões

Engano seu se você acha que é só sair por aí na handbike e pronto. Assim como o João, paratletas também precisam de acompanhamento e de uma rotina de exercícios para evitar lesões musculares, tendinosas e ósseas. Em 2016, foram mais de 4000 atletas participando dos Jogos Paralímpicos, um número muito semelhante a Londres 2012 e infinitamente maior do que na primeira participação (16 atletas em 1948).

Após os Jogos de 2012, foi realizada uma estatística sobre os tipos de lesões mais comuns nos atletas. O ombro foi a articulação mais comprometida em atletas cadeirantes, principlamente nas paratletas mulheres do basquete, seguidas de dor cervical e torácica. A lesão de membro inferior mais frequente foi lesão de joelho, representando quase 8% de todas as lesões relatadas. Os jogadores do vôlei sentado tiveram lesões nos ombros, punho e joelhos, enquanto os jogadores brasileiros do futebol de 5 apresentaram mais lesão nos joelhos (80%) e na cabeça (9%).

Além das lesões serem muito semelhantes às dos atletas olímpicos, os paratletas também são submetidos a exames de controle antidoping. O velocista sul africano Oscar Pistorius, condenado pelo assassinato de sua noiva, também foi suspeito de doping, pois a polícia encontrou anabolizantes em sua casa ao realizar a investigação do assassinato. Os paratletas brasileiros Kleber Ramos (ciclismo de estrada) e Luciano dos Santos Pereira (atletismo) testaram positivo para substâncias proibidas, sendo suspensos do esporte e até perdendo medalhas.

Deficiência não é limitação

Alimentar o sonho de uma criança ou um adolescente de se tornar um paratleta é possível, pois as deficiências não impedem que talentos específicos sejam desenvolvidos. Apesar das sábias palavras do Clodoaldo, o caminho para formação de um paratleta ainda está longe do ideal. Antes mesmo disso, precisamos cuidar da população com deficiência e assegurar qualidade de vida, sem que sua deficiência se desdobre em doenças por falta de incentivo ao exercício.

 

Você foi aos Jogos Paralímpicos no Rio? Você conhece alguma pessoa com deficiência que tem dificuldade de fazer exercício? Compartilhe sua história nos comentários.