Maratona: benefício ou risco à saúde dos atletas?

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Maratona é um esporte que vem ganhando mais adeptos a cada ano. Em 2000, menos de 1 milhão de pessoas participaram de maratonas nos EUA, número que dobrou em 2010. Mais do que uma corrida, a maratona traz consciência sobre os benefícios da prática regular de exercícios e muitos participantes começam como corredores de provas menores, buscando melhorar seu estilo de vida. Mesmo tendo relação direta com saúde, existem casos de morte de corredores durante esses eventos esportivos, levando ao alerta sobre a necessidade de avaliação e acompanhamento médico dos atletas antes das competições e da necessidade de uma estrutura médica para socorrer os participantes.

A segurança da saúde do atleta começa pelo próprio atleta

Muitas pessoas têm uma história em comum na corrida. Por querer perder peso, ou melhorar o colesterol, ou por simplesmente querer adotar um estilo de vida mais saudável, elas começam a correr. Algumas correm sozinhas, outras se juntam a grupos e acessorias de corrida e um grupo mais “tecnológico” conta com aplicativos e gadgets para correr.

Mas poucos se consultam com o médico antes de iniciar um programa de exercícios de forma regular. A chamada avaliação pré-participação é a consulta e o exames realizados para descobrir algum fator de risco, doença assintomática ou para ter certeza que tudo está correto. Ela é importante também para quem vai praticar musculação, crossfit ou qualquer outro tipo de esporte. Amador ou profissional, tanto faz. Essa é a única de forma do atleta saber o que se passa no seu corpo e evitar eventos infelizes.

Porque eles acontecem. Por mais que o esporte seja relacionado à saúde, existem casos de morte durante maratonas e a grande maioria (86%) está relacionada a homens jovens (média de 42 anos), sem nenhuma doença ou sintoma conhecido. E o número de casos de parada cardíaca em maratonas vêm aumentando nos últimos 10 anos, possivelmente relacionado também ao aumento do número de participantes.

Em 2010, houve 2 mortes a cada 100 mil participantes de maratona. Você pode achar isso ridiculamente baixo, mas pergunte-se se essas mortes poderiam ter sidos evitadas só com uma consulta ou um exame.

Algumas pessoas têm sorte, como o caso do corredor que foi atendido por um cardiologista que também corria a Meia Maratona do Rio de Janeiro em 2015. No geral, os participantes contam com o serviço médico contratado pelo organizador da corrida.

Nem todo local de prática de exercício conta com apoio médico

O serviço médico de um grande evento esportivo, como maratona ou triatlon, conta com o diretor médico e todas as equipe que vão ser posicionadas em pontos estratégicos do percurso. A logística de remoção de um atleta da pista para o posto médico é testada e, antes da prova acontecer, é definido um plano de contingência para transferir os casos graves para hospitais próximos. Todas as equipes e o posto central devem ter medicamentos, equipamentos de trauma e desfibrilador. A organização do serviço médico também deve estar em contato com a organização de outros setores do evento para saber detalhes mínimos, como a localização dos pontos de hidratação.

O papel do serviço médico pode começar dias antes da prova, com algumas paletras para os participantes e seus times, para equipes das outras áreas do evento e até mesmo para a platéia. Mas o trabalho acaba bem depois de encerrada a prova, pois é necessário continuar o tratamento ou fazer a remoção dos atletas para unidades hospitalares e documentar tudo o que aconteceu na prova.

Ao contrário das maratonas, não é todo local de prática esportiva que conta com apoio médico ou de profisisonais habilitados a prestar o primeiro socorro em caso de parada cárdio-respirtaória. As academias recebem milhares de alunos todos os dias que nunca fizeram uma avaliação médica. Além disso, não são todas as academias que investem em treinamento de seus professores, que podem salvar uma vida caso tenham feito o curso básico de suporte de vida. Com esse curso, o profissional está apto até a usar o desfibrilador.

Então hoje, nos deparamos com pessoas que desconhecem sua própria saúde, fazendo exercício em locais que não são equipados para atender uma emergência com profissionais que não reconhecem um quadro grave

Há muito tempo, existe um movimento a favor da obrigatoriedade de atestado médico em academias e também da necessidade de equipamento básico para atendimento de emergência. Mas as leis não têm ajudado muito, já que em 2014, no Rio de Janeiro, a lei nº 6765/14 diz que não é obrigatória a apresentação de atestado médico, salvo em caso de doença prévia. Quanto aos equipamentos e ao desfibrilador, em 2014, foi votado o Projeto de Lei 6649/13 que obrigava as academias a ter um desfibrilador, mas ele foi vetado. Em 2016, a Alerj recebeu um projeto de lei semelhante, que ainda não foi votado.

Os riscos do exercício no calor

Mesmo cercados de todos os cuidados, ainda assim, os atletas maratonistas podem enfrentar problemas de saúde causados pelo calor excessivo nas provas. Cabe à direção da prova ter o bom senso de definir a data e o horário da prova para que os efeitos do calor sejam minimizados. Cabe também à direção, disponibilizar postos de hidratação próximos, com bebidas em temperatura adequada. A hidratação é fundamental. Mesmo sendo feita de maneira correta, o atleta pode sentir.

O estresse térmico relacionado ao exercício é causado por desidratação grave, com aumento da temperatura central do corpo acima de 40°C. O corpo não encontra meios de se resfriar e a tempetura extremamente alta leva à quebra das proteínas musculares, que se depositam no rim e causam insuficiência renal aguda. A pessoa perde seus sentidos e entra em coma, precisando ser hidratada e resfriada imediatamente. Esses atletas devem ser removidos de imediato para um hospital, porque precisam de cuidados de UTI. Um quadro grave desses pode levar à necessidade de hemodiálise e pode ser irreversível, causando a morte.

Correr é um vício

O maratonista que foi reanimado em 2015 voltou a correr após a liberação médica, três meses depois. Ele disse ter recebido muitas mensagens de apoio para não deixar a corrida, mesmo tendo passado pelo que passou. Hoje, ele incentiva os atletas a fazer o curso básico de suporte de vida, pois foi a ação rápida de uma pessoa com treinamento que o salvou.

“Correr é um vício”, ele disse. Um vício muito saudável, que já ajudou muita gente a sair da obesidade, a melhorar o colesterol, a diminuir risco de doenças do coração. No final das contas, correr faz mais bem do que mal. Hoje, exercício é prescrito até para quem já passou por transplante cardíaco. Pessoas saudáveis devem continuar correndo, mas tendo a certeza que está tudo bem para que as surpresas sejam sempre boas, como ter baixado o tempo na prova.

O tempo “perdido” indo ao médico pode salvar uma vida. Qual a última vez que você consulto o seu?

 

Você corre? Você (ou algum amigo) já passou mal numa competição? Compartilhe sua história nos comentários.