Obesidade infantil e dificuldade de emagrecimento

Teoria da origem fetal
Obesidade infantil e a dificuldade de emagrecimento mesmo em crianças e adolescentes que fazem exercício físico

É muito interessante ver como as mulheres estão dando mais atenção a sua saúde durante a gravidez (como a jornalista Fernanda Gentil, acompanhada pelas câmeras) ou como as mulheres que continuam se exercitando mesmo depois de engravidar. A preocupação é com elas e obviamente, com o bebê que está para chegar. Mas você sabia que a saúde do seu filho pode ser alterada antes mesmo dele ser concebido?
Infelizmente, o número de crianças com sobrepeso e obesidade aumenta a cada ano no Brasil. Mesmo muitas dessas mães, extremamente cuidadosas na gravidez, têm filhos que começam a desenvolver obesidade numa idade precoce, por volta dos 5 anos de idade. E não só ficam obesos, como desenvolvem hipertensão arterial, colesterol alto e diabetes. São crianças que, mesmo fazendo exercício, têm dificuldade em perder peso e ter uma vida saudável. Será que isso aconteceu só por causa de um biscoito recheado, ou por que a mãe os levou para comer hambúrguer no final de semana?
Não. A resposta está muito além dos genes da própria criança e toda sua doença pode ter começado ainda na juventude da mãe. Ao contrário do que Darwin pensava, as características adquiridas podem sim ser levadas às gerações futuras. Os óvulos de mulheres obesas podem ter passado por alterações genéticas, que vão influenciar na saúde dos seus filhos. E essas alterações se acumulam de geração para geração. Além disso, o estado nutricional da mãe durante a gestação também vai dizer que doenças as crianças desenvolverão mais tarde.
O nome disso é a “teoria da origem fetal”. Cada pessoa herda gens dos seus pais. Porém, alguns outros são modificados por condições externas, que predispõe essa pessoa a desenvolver alguma doença crônica não transmissível (DCNT), como hipertensão, diabetes e câncer.
Se a mãe sofre alterações na sua saúde por agressões externas (como excesso de junkfood ou exposição a disruptores endócrinos), os gens são alterados e passados para seus filhos. Se essas agressões ocorrem durante a gravidez, os gens da criança em desenvolvimento são afetados ainda na barriga da mãe. Um grande exemplo foi visto durante a Segunda Guerra: mulheres grávidas, famintas nos campos de concentração deram à luz a crianças, em sua maioria com baixo peso ao nascimento. Essas crianças foram acompanhadas durante décadas e se tornaram adultos obesos, com pressão alta e diabéticos em sua maioria, estabelecendo uma relação entre o baixo peso ao nascimento com essas doenças.
E não é só antes (na juventude da mãe) ou durante a gravidez que essas alterações podem ocorrer. Os primeiros 1000 dias da vida de uma pessoa são um grande período crítico, pois vários órgãos e tecidos estão-se formando. Se houver exposição a algum agente agressor, essa criança pode ter conseqüências a longo prazo, assim como aquelas que sofreram a exposição na vida intra-útero. Sim, isso é extremamente complexo, porque muitas mulheres se perguntam porque seus filhos estão obesos e porque continuam obesos, mesmo quando mudanças de estilo de vida são adotadas.
Com essa bagagem genética, é possível uma pessoa se manter saudável? Sim. Porém, ela vai ter que “apertar os botões” para ativar os gens certos, através da alimentação saudável e exercício físico. Esses são seus “remédios” e ela pode passar uma vida inteira sem nunca ter uma doença. O excesso de açúcar, de gordura trans e de calorias ativam os gens para desenvolvimento das DCNTs em todos nós, mas se a pessoa já os carrega, ela tende a desenvolver mais cedo e de forma mais severa, mais resistente aos tratamentos.
A gênese da obesidade é muito mais complexa do que imaginamos. Dizer que alguém é obeso por desleixo é minimizar uma doença multifatorial. Apesar das conseqüências da obesidade serem visíveis, as suas causas e suas alterações orgânicas são descobertas recentes. Tratar um obeso requer mais que fazer uma dieta ou prescrever uma série de exercícios. É necessário um tratamento multidisciplinar. E, agora, já sabemos que esse tratamento começa antes mesmo da criança ter nascido.